Estéticas das Periferias: difundir e valorizar práticas culturais ou uma forma de apoderar-se das criações periféricas?

Ana Paula do Val, Liliane Braga, Glauco Soto, Rafael Mesquita e Maurício del Nero integravam o debate sobre o tema Redes e Movimentos Culturais Policêntricos.

Fotos: Renata Franco

Texto: Mara Esteves

Entre os dias 21 e 30 de agosto aconteceu o 2º Seminário e Mostra Estéticas das Periferias – arte e cultura nas bordas da metrópole, realizado em diversos pontos da cidade de São Paulo, com a proposta de apresentar e discutir a existência de uma determinada “estética” que represente a periferia e o e seus múltiplos contextos de se fazer arte.

Acompanhamos a programação do dia 28/08, terça-feira, no SESC Santo Amaro, que contou com um público de aproximadamente 120 pessoas, de acordo com a organização do evento. As apresentações acadêmicas e mesas de debates abordaram os circuitos culturais, suas formas de interligação em redes que potencializam a produção e a difusão cultural. Os trabalhos acadêmicos: “Cuidado com os poetas! Uma etnografia sobre o mundo da literatura marginal na cidade de São Paulo”, de Lúcia Tennina (Universidade de Buenos Aires) e “Cultura de Rua: construção da identidade do Negro e o Movimento Hip Hop”, de Márcia Aparecida da Silva Leão (CNPQ) foram apresentados e contribuíram para a reflexão acerca das origens desses movimentos culturais, sua herança de resistência e a utilização da arte como forma de reagir à criminalização de quem vive na periferia.

Após a apresentação dos trabalhos, deu-se início ao ciclo de debates, com o tema: “Circuitos e trajetos: o marginal no centro e na periferia”, composta por Eliezer Muniz (Canal Motoboy); Rafael Calazans (Associação Aprofunk); José Guilherme Magnani (NAU-USP) e Leandro Benetti (CCJ-Ruth Cardoso). A mesa levantou questões sobre a criminalização do funk e os reais motivos dessa ação, entre outros assuntos. O tema da criminalização foi reforçado por Eliezer, ao fazer uma crítica à deturpação do verdadeiro significado do termo “marginal”, associado à delinquência e à criminalidade e não àquele que vive à margem da sociedade e que também está constantemente atuando e inserido no centro.

“Redes e Movimentos Culturais Policêntricos”, foi tema da segunda mesa abordando também o colaborativismo como ferramenta de produção cultural e transformação social, Rafael Mesquita (Agência Solano Trindade); Liliane Braga (Rede Kult afro); Ana Paula do Val (EACH-USP) e Maurício Del Nero (SESC) e o mediador Glauco Soto, integravam o debate. Rafael Mesquita, sociólogo e articulador da Agência de Fomento a Cultura Solano Trindade, que atua no fomento, produção e comercialização cultural, iniciou o debate, levantando críticas á organização do evento, que não solicitou ou comunicou a inclusão de atividades realizadas pelos coletivos ligados a agência (Mostra de Arte Periférica e os Saraus realizados nos Ônibus-Bibliotecas) na programação do evento, o termo “estética” também foi questionado, afinal, dá margem a interpretações que não representam a realidade e podem remeter ao interesse de transformar essas ações culturais em produtos meramente comerciais, impõe por trás da construção do imaginário da “estética da periferia”, a “estética” da miséria, a “estética” do crime como muitas vezes é propagado pelas mídias de massa, ocultando a verdadeira face, o povo pobre e a luta pelos seus direitos, as práticas culturais de resistência, a transformação do espaço que está inserido e o de questionar os problemas sócio-políticos através da arte.

Reforçou os questionamentos levantados pela primeira mesa em relação à criminalização e enfatizou a preocupação com a militarização de São Paulo e do Rio de Janeiro, à imposição de valores e estratégias de ordem, perseguição e criminalização do povo, citando como exemplo, a proibição de festas nas periferias, a morte da juventude negra e pobre, o fechamento do bar que sediava o Sarau do Binho e os fatos ocorridos na desocupação do Pinheirinho. Rafael demonstrou as ações socioculturais ligadas a Agência que tem como foco o cooperativismo, promovendo trabalho, renda e valorização cultural, o vínculo com a União Popular de Mulheres do Campo Limpo e adjacências, movimento iniciado em 1960 e seu papel fundamental para a criação da Agência, a continuidade das ações em prol desta e de outras lutas populares, fortalecendo as relações comunitárias.

Maurício del Nero apresentou o trabalho de mapeamento de atividades culturais da região de Santo Amaro e cidades próximas como: Taboão da Serra, Embu, Itapecerica da Serra e Diadema. O projeto Santo Amaro em rede tem a proposta de identificar as ações realizadas pelos coletivos e criar possibilidades de expandir os trabalhos mapeados. Liliane Braga da Quisqueya Brasil, esteve presente representado a rede Kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra no Estado de São Paulo, e demonstrou os trabalhos realizados em parceria com outros coletivos quem mantem o foco no empreendedorismo de ações destinado a disseminar a cultura negra.

Entender como se formam e qual os objetivos dos movimentos culturais, foi apontado por Ana Paula do Val, como fator extremamente importante, enfatizando a luta das mulheres ao migrar para as periferias por falta de moradia e que a partir daí, começaram a construir um novo território datado de relações políticas conflituosas e de luta por melhorias. Essa identificação da periferia também é composta por outros agentes que  fortalecem esses movimentos, questionou que essas práticas culturais não nascem isoladamente, somente por necessidade de se fazer arte, o engajamento político e como essas ações vão dialogar com a comunidade que são as matrizes das ações coletivas, enalteceu a importância do Programa Vai para a continuidade desses coletivos, a possibilidade de expandir e dar continuidade a essas e outras ações.

Após as apresentações, o publico teve a oportunidade de direcionar suas perguntas, Rafael foi questionado sobre a ligação com a União Popular de Mulheres, sobre a ruptura entre as lideranças antigas e os jovens que estão se organizando, mas que, não possuem uma história política e são facilmente captáveis por essa “venda” da periferia, direcionou o questionamento sobre o termo empreendedor, o risco de precarização do trabalho, sem pensar na coletividade pela luta de seus direitos, e o que realmente define esse termo na opinião de Liliane Braga e a rede que representa. Fernando Ferrari, morador do Capão Redondo, um dos organizadores do Sarau da Vila Fundão, e integrante do movimento nacional Luta Popular, fez uma ressalva a Eleílson Leite (coordenador da Ação Educativa, um dos realizadores do evento), reforçando o que foi levantado anteriormente acerca da apropriação de atividades, mencionou que o Sarau da Vila Fundão não faz parte do evento, logo não deveria constar na programação, recusa a estética criada pelo evento por conta da falta da construção coletiva, também direcionou a pergunta ao Rafael, sobre o que ele pensa acerca dos patrocinadores do evento, que alguns dialogam com as ações, outros não, o que ele pensa sobre essas grandes empresas, usando entre outros trabalhos dos coletivos o trabalho da agência, para fazer uma estética, através de um pontão de cultura com incentivo financeiro de 1 milhão de reais (Ação Educativa), e representando outros movimentos que se comunicam em rede juntando em torno de 600 coletivos questionou a organização do evento, “nós como rede, queremos saber dessa “estéticas” quanto é que cada empresa investiu nesse evento? Não daria para fazer mais ações nas periferias de São Paulo? Será que não dava para fazer, mais 200 saraus novos na quebrada?” indagou Fernando.

Finalizando a rodada, Paulo da Associação Cachoeira  direcionou á pergunta também a Rafael, questionando, a história desses movimentos que não são contemporâneos, mencionando os acontecimentos que proibiram os “batuques” africanos no século 19, e enxerga uma continuidade histórica, na época todos esses movimentos negros representavam um ajuntamento perigoso para a segurança pública, um atentado contra a moral e a igreja católica, atualmente existem comunidades herdeiras desses movimentos, como reatar essas questões históricas para alimentar essas expressões contemporâneas?

Rafael mencionou o fato de a agência atuar através da União Popular de Mulheres, que vem se diferenciando e conseguindo construir plataformas diferentes, por causa da abertura dada aos jovens, e as mudanças relacionadas às ações, ocorrem conflitos por isso, pela falta de entendimento dos mais antigos, por não entender que essas práticas são realizadas pelos mesmos direitos reivindicados, mas trazendo a arte como ferramenta de transformação, os movimentos estão lutando para entender isso, dando credibilidade aos jovens, e questionando qual história será criada, mas enfatiza que, muitos outros movimentos que nasceram nesta época, são fechados, não dão esta oportunidade aos jovens e possuem pouco espaço para criar, e está dentro da lógica da pobreza, ganhar dinheiro com aquilo, sem interesse de melhoria. A participação e a prática em rede para ser ampliada possui um entrave relacionado a distancia e a falta de recursos financeiros, uma dificuldade que a Agência possui atualmente, mas existe a preocupação de construir práticas para que as pessoas possam continuar atuando em conjunto.

Sobre a questão levantada por Fernando, Rafael menciona o lado positivo deste evento, pois incentiva a discussão sobre como foi feito, qual o processo e conceitos abordados, e conclui que não são legítimos e integrados, não ficou claro como ocorreu à integração das ações na programação sem participação da agência na organização do evento, como aconteceu a colaboração destes patrocinadores, identifica uma falta de curadoria coletiva, sabendo que os recursos direcionados nem sempre são para ampliar discussões, mas para reproduzir somente aquilo que é do interesse dos patrocinadores.

Em resposta ao termo empreendedor, Liliane Braga se identifica como “fazedora” de projetos, mas afirma que seu objetivo é ser bem-sucedida, ter lucro, porém questiona a utilização da cultura negra sendo comercializada por pessoas que não possuem compromisso com essa determinada questão.

Após o debate Eleílson Leite,  pediu desculpas em nome dos organizadores, sobre a falta de esclarecimento em relação as atividades realizadas pela agência e que foram integradas ao evento, afirmou que não houve patrocínio, a parceria com o Itaú Cultural aconteceu por ser gestor do Auditório do Ibirapuera que abrigou o show de encerramento, argumentou que o único investimento foi do Centro Cultural da Espanha, com o valor de 24 mil reais para a realização e o Centro Cultural de São Paulo com mais 30 mil reais para a organização do evento, que não receberam o valor sobre o Pontão de Cultura, assumiu as deficiências do evento, porém não gostou das críticas, mas se comprometeu e convidou a Agência Solano Trindade e o Sarau da Vila Fundão para a curadoria do  próximo evento.

Luan Luando, poeta e integrante da Agência Solano Trindade, convidado por Rafael Mesquita para finalizar o evento com a sua poesia, proferiu críticas bem fundamentadas sobre os editais, seu descontentamento em relação ás críticas de Eleílson Leite, divulgadas na internet sobre o Sarau do Binho, e junto a ele, ecoaram as vozes das pessoas que acompanhavam o debate em resposta a toda essa forma de rotular ações e transformar em produtos.

“Salve, maloqueiro, mocambeiro, brasileiro Rimo por amor não pelo dinheiro Salve, maloqueiro, mocambeiro, brasileiro Rimo por amor não pelo dinheiro.”

 

    • suzi
    • 12 de Setembro, 2012

    Muito bom texto Mara e bastante esclarecedor para quem não esteve presente no evento

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